Talvez a habilidade mais importante para um bom resultado em foto-sub não
esteja ligada à fotografia, mas ao mergulho: é o controle da "aquaticidade".
O que chamamos de "aquaticidade" é, na verdade, um conjunto de habilidades (que
pretendemos mostrar nas próximas "dicas"), das quais a flutuabilidade é a
mais importante para a foto-sub. Temos recomendado que os mergulhadores somente se iniciem em foto-
sub depois de terem dominado sua flutuabilidade.
O mau controle da flutuabilidade está ligado ao uso excessivo de lastro. Qual é,
afinal, o lastro ideal para o controle da flutuabilidade? É aquele que nos permite permanecer
estáveis, com pernas e braços cruzados, a três ou quatro metros de profundidade
(ponto da parada de segurança), totalmente equipados, com o cilindro de ar no início
da reserva e com o colete vazio. Por isso, sugerimos que, até que se tenha obtido um bom
controle de flutuabilidade com determinado equipamento, todo final de mergulho seja feito entregando-se
uma pedra de lastro ao supervisor e retornando aos três ou quatro metros para testar a
flutuação.
Apenas como referência (afinal, cada pessoa tem uma flutuabilidade
diferente), julgamos que um adulto médio, com roupa completa de 5 mm de espessura, em águas
frias, não deva usar mais do que seis quilos de lastro. Em águas tropicais, muito menos.
A propósito, cabe lembrar que um cilindro S80 contém cerca de dois quilos de ar, quando
cheio. Portanto, o mergulhador corretamente lastreado inicia o mergulho com apenas dois quilos de
flutuabilidade negativa, compensados no colete.
Nas dicas anteriores tratamos da flutuabilidade; agora queremos tratar
de outra habilidade da "aquaticidade": o equilíbrio horizontal, que os de lingua
inglesa chamam trim.
Os corpos possuem um ponto imaginário, chamado centro de gravidade, onde toda
força-peso poderia ser concentrada. Esse ponto pode estar mais acima ou mais abaixo, de
acordo com a densidade de nossos tecidos, mas geralmente fica no centro do tronco. Existe, ainda,
um outro ponto de interesse para os mergulhadores, que é o centro de flutuação,
onde todas as forças de empuxo da água poderiam ser concentradas. Ao contrário
do centro de gravidade, que depende da distribuição de densidades ("pesos") dos nossos
tecidos, o centro de flutuação depende da distribuição de volumes de
nosso corpo. Assim, por exemplo, quem tem as pernas volumosas, tem o centro de flutuação
deslocado mais para baixo.
Como o peso puxa para baixo e o empuxo para cima, um corpo só
estará em equilíbrio estável se o centro de gravidade estiver abaixo do centro
de flutuação. O equilíbrio ideal se dá quando os dois centros coincidem.
Nessa situação, estaremos em equilíbrio para qualquer posição
do corpo: horizontal ou vertical, cabeça para cima ou para baixo.
É muito difícil
determinar, na prática, a localização exata dos centros de gravidade e de
flutuação. Mas podemos procurar fazer coincidir os dois pontos, por tentativa e erro,
relocando a posição do cinto de lastro e verificando o equilíbrio horizontal.
Se os dois pontos não coincidirem, dificilmente poderemos permanecer na horizontal sem
movimentar os pés ou as mãos. Boa parte dos mergulhadores atinge esse equilíbrio
com o cinto colocado na parte alta da cintura, e os lastros igualmente divididos nas duas laterais.
Jessica Roessler, modelo do fotógrafo Carl Roessler, utiliza um cinto de lastro de dois
quilos, preso no cilindro de ar, pouco acima da bota. Essa é uma idéia interessante,
porque compensa a perda de peso de ar do cilindro, evitando que o mesmo flutue e puxe o mergulhador
para cima ao final do mergulho. Às vezes, deve-se puxar o centro de gravidade propositadamente
para cima, por exemplo, quando se penetra num naufrágio, fazendo com que as pernas subam,
para evitar que as nadadeiras levantem areia fina. É terrível para um fotógrafo
quando alguém - ou ele próprio - permanece na vertical "pedalando" suas nadadeiras
contra a areia do fundo. Além disso, o equilíbrio horizontal ajuda muito na
aproximação para a tomada fotográfica.
Nas dicas anteriores tratamos da flutuabilidade e do equilíbrio
horizontal. Essas habilidades são básicas para o fotógrafo-sub controlar
seu movimento. O fotógrafo-sub não deve se agitar, para poder se aproximar das
criaturas marinhas. Estando com o colete quase totalmente desinflado, ele controla seu movimento
para cima ou para baixo apenas com a respiração. A situação mais
característica é quando estamos a menos de um metro de um peixe arisco - que só
se deixou aproximar porque permanecemos quase imóveis - prontos para fotografá-lo,
e ele se desloca um pouco para cima. Qualquer movimento brusco o faria disparar. Nesse caso,
inspiramos e seguramos a respiração por alguns segundos para que nosso corpo se
desloque um pouco para cima, até atingirmos o plano ideal para fazer a foto. Para um peixe
que está num plano abaixo do nosso, em geral, só é possível uma boa
aproximação quando descemos imóveis, apenas desinflando os pulmões.
O problema é que precisamos manter a respiração parada por algum tempo para
ganhar a confiança do peixe, e isso exige um certo relaxamento mental, principalmente quando
se está com os pulmões vazios. A respiração deve ser retomada aos poucos,
soltando-se bolhas pequenas, jamais com espalhafato e ruído. O que descrevemos acima pode
parecer heresia para um mergulhador recém-saído da sala de aula do curso básico:
movimentar-se para baixo e, ainda pior, para cima com a respiração trancada. Mas o
que estamos descrevendo são deslocamentos de poucos metros, longe da zona crítica
nas proximidades da superfície.
Os mergulhadores iniciantes tendem a usar demais mãos e braços para se movimentar.
Poucas são as criaturas marinhas que toleram a proximidade do mergulhador que agita os braços
freneticamente. Além disso, o fotógrafo-sub tem as mãos compromissadas com o
equipamento. Nesse sentido, a fotografia até ajuda a disciplinar o mergulhador no uso de
seus braços. É curioso ver um mergulhador iniciante tentando
frear seu movimento, "empurrando" água para frente. Quando o deslocamento é suave,
basta tocar com a ponta do dedo numa pedra para estancar o movimento. Para não causar qualquer
dano, procure uma pedra livre de seres vivos. Também é possível frear usando
as nadadeiras. Para isso, os joelhos devem ser dobrados, e as nadadeiras colocadas perpendicularmente
ao sentido do movimento, como se fossem pára-quedas. Mais do que isso, é possível
RETROCEDER usando as nadadeiras. Em continuação ao movimento de frear, as nadadeiras
devem ser empurradas para frente, fazendo-se um movimento de sapo com as pernas. É preciso
praticar um pouco para conseguir esse movimento, mas, às vezes, é o único
possível, quando se tem ambas as mãos ocupadas.
A técnica mais conhecida e explorada é o oferecimento de alimento.
Dizem que os peixes-napoleão do Mar Vermelho eram viciados em ovos cozidos, mas, mesmo assim,
nem chegavam perto de bolas de pingue-pongue. Embora quase sempre efetiva, é uma técnica
antinatural e antiecológica. Preferimos outra técnica baseada no reconhecimento do
comportamento típico dos peixes. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que de um
peixe perseguido só se fotografa o rabo. Ao contrário, é preciso explorar a
curiosidade natural dos peixes: parar num ponto favorável, mexer em alguma coisa e esperar
que eles venham inspecionar. Alguns, mais arredios, mesmo assim não vêm. Esses podem
ser classificados em duas categorias: peixes de passagem e peixes territoriais.
O peixe de passagem
confia em sua velocidade. De nada adianta tentar persegui-lo. Pelo contrário, devemos fingir
que não queremos nada com ele. A aproximação deve ser feita não na
direção dele, mas numa trajetória paralela à dele, ou melhor, numa
trajetória convergente. Deve-se procurar não olhar diretamente para ele durante o
lento processo de aproximação, mas mantê-lo sob controle com o canto dos olhos.
Quando a distância for ideal, acelerar um pouco, tomando sua dianteira, e virar para pegá-lo
de frente. Esse é um processo curioso, que vale a pena treinar, mesmo sem equipamento
fotográfico. Em geral, o peixe imobiliza, levando algum tempo para se recuperar da surpresa,
o que é suficiente para uma boa foto. Se o fotógrafo estiver sendo acompanhado de
seu modelo, este deve seguir o mesmo padrão de movimento, colocando-se do outro lado do peixe.
O peixe territorial, em geral, confia em seu mimetismo, isto é, em sua habilidade de se
confundir com o ambiente. Por isso, a técnica de aproximação é oposta
à do caso anterior. Deve-se "cravar" os olhos sobre ele enquanto se efetua um movimento
extremamente lento de aproximação. Ele permanecerá estático, certo de
que qualquer movimento poderá denunciá-lo. O maior problema, nesse caso, é que,
quando nos aproximamos demais, podemos precisar desviar os olhos para reajustar os controles da
câmera. É a senha para a fuga de nosso astro. Outro fator que causa a fuga é o
ruído das bolhas de ar. Enquanto estivermos a uma distância razoável, devemos
expirar em pequenos pulsos. Quando estivermos muito próximos, é melhor parar de respirar.
As técnicas aqui descritas podem parecer difíceis, principalmente para mergulhadores
iniciantes: equilibrar-se, movimentar-se sem usar as mãos, parar de respirar... Na verdade,
são coisas que fazemos naturalmente fora d'água, sem nos aperceber. Fazê-las
dentro d'água depende apenas de ambientação. Fazê-las bem é um
desafio compensador, não apenas pela grande melhoria na qualidade das fotos, mas, principalmente,
pelas novas habilidades adquiridas, que nos dão a sensação de domínio
do meio, que nos fazem sentir como um peixe dentro d'água!
Nem toda foto-sub exige a
presença de um mergulhador, mas o modelo empresta à foto uma noção de
proporção entre as partes e de interação do ser humano com a vida marinha.
Em relação ao modelo de fotografia convencional, o modelo submarino tem uma
responsabilidade adicional, pois, além de se preocupar com a fotografia, deve se preocupar
com a segurança de seu dupla.
O modelo-sub deve ter domínio total do equilíbrio de sua flutuabilidade, com
movimentos e respiração absolutamente controlados. Além disso, é
aconselhável que o mesmo tenha equipamento e roupa atraentes, cores combinadas e
máscara de grande volume, para valorizar os olhos. Sendo a água um ambiente móvel,
dificilmente o modelo ficará estático na posição ideal enquanto o
fotógrafo ajusta seu equipamento. O mais usual é que o modelo se desloque lentamente
em direção à posição ideal, escolhendo o sentido de
aproximação mais favorável, quer quanto à composição,
quer quanto à corrente local. Se o fotógrafo "perder o ponto", deverá sinalizar
ao modelo, que dará meia-volta e reiniciará a aproximação. Essa
modelagem por deslocamento confere à foto uma dinâmica própria e muito natural
para um ambiente que se movimenta, mas, por outro lado, exige perfeita coordenação
fotógrafo-modelo.
A respiração deve ser controlada. Sugerimos que a respiração do
modelo seja distribuída entre uma inspiração profunda e uma expiração
controlada, soltando o ar aos pulsos, pequenos e constantes, com a cabeça um tanto horizontal,
para que as bolhas passem lateralmente ao rosto. Não passando pela frente da máscara,
elas não interferem na expressão facial. O fotógrafo dispara a câmera
quando as bolhas já se descolaram do rosto do modelo e estão um tanto acima do mesmo.
A presença de bolhas confere certa realidade à presença do mergulhador na foto. A
ausência de bolhas pode dar a impressão de que, no lugar do mergulhador, encontra-se
um boneco pendurado por barbantes.
Recentemente temos visto o desenvolvimento de novas tecnologias de mergulho recreativo, que
estão se tornando ferramentas poderosas para a foto-sub. Uma delas é a
popularização das misturas gasosas enriquecidas em oxigênio, chamadas de
Enriched Air Nitrox, EAN ou simplesmente NITROX. Destas, estão se tornando
bastante acessíveis a mistura com 32 porcento de oxigênio (EAN32) e a mistura com 36
porcento de oxigênio (EAN36). Comparadas com ar comprimido, essas misturas permitem maiores
limites não-descompressivos, menor penalidade descompressiva e menor intervalo de
superfície. Todos esses fatores favorecem o fotógrafo-sub, no sentido de lhe propiciar
maior tempo de fundo, que é o parâmetro mais valioso nessa atividade. Existe um conceito,
incorreto, de que o NITROX pemite mergulhos mais profundos que o ar. Talvez, num futuro breve, a
popularização de outras misturas, como o Trimix, venham a preencher essa necessidade.
Outra tecnologia de mergulho muito vantajosa para a foto-sub é o REBREATHER. Na verdade,
não é uma tecnologia nova, sendo conhecida há muito tempo por seu uso militar.
Mas, tal como o NITROX, a novidade é estar disponível para uso recreativo. Hoje em dia
vários resorts de mergulho e muitos live aboards do exterior já oferecem
o Rebreather como uma opção ao equipamento scuba tradicional.
O Rebreather é um sistema fechado ou semi-aberto de respiração, que
praticamente não emite gases expirados. O oxigênio é consumido pelo mergulhador,
o nitrogênio recircula no sistema e o dióxido de carbono expirado é absorvido
por um reagente químico, geralmente cal sodada. Para quem fotografa principalmente peixes,
em foto de aproximação, sabe a significativa utilidade de um sistema que não
expele bolhas. Alguns peixes, mais tímidos, só permitem nossa aproximação,
com equipamento scuba, enquanto estamos em apnéia. Assim que soltamos as bolhas de
nossa expiração, eles desaparecem!
Importante relembrar que tanto o uso do NITROX como do REBREATHER exigem treinamento
específico, que pode ser ministrado por algumas das certificadoras brasileiras (ver nossos
Links).
Voltar ao Índice de Dicas